Silagens de ração total: um breve histórico e suas aplicações

Os sistemas de produção de ruminantes, tanto de carne como de leite, vem se intensificando ano após ano por meio de melhorias nos aspectos nutricionais e técnicas de preparo dos alimentos, como também devido ao desenvolvimento de equipamentos e tecnologias para atender a uma quantidade crescente de animais. Tais mudanças foram incitadas pela demanda crescente por produtos de origem animal para suprir a alimentação humana, exigindo que os sistemas produtivos apresentassem maior velocidade de produção.

Os ruminantes, sendo herbívoros que aproveitam a energia contida na fração fibrosa das plantas forrageiras, historicamente estiveram associados a sistemas de produção extensivos, onde as plantas forrageiras constituíam a principal fonte alimentar (BURNS, 2008; CLAUSS; HUME; HUMMEL, 2010; PÉREZ-BARBERÍA, 2020). Isso resultava em um crescimento mais lento e uma produção de leite reduzida, especialmente devido à vulnerabilidade climática, evidenciada por períodos de escassez de forragens em climas tropicais, frios e temperados.

No início do século XX, a indústria emergente de carne e leite reconheceu o potencial dos grãos na dieta animal para aumentar a produção individual. Contudo, as práticas de confinamento para produção de carne e leite eram adotadas sem rigor nas formulações e proporções de ingredientes (ALLISON, 1906; FRASER, 1904; MUMFORD; HALL, 1913; SMITH; BRAY, 1905; SUMMERS; SHOOK, 1912; WILCOX, 1927; WILLSON; ROBERT, 1914).

Apesar de as forragens continuarem sendo a base da alimentação animal, o concentrado ganhou mais destaque na pecuária leiteira, especialmente durante a ordenha, sendo adicionado sobre a forragem moída (SCHINGOETHE, 2017; FRASER, 1904; FRASER; HAYDEN, 1912; SUMMERS; SHOOK, 1912). Devido à sazonalidade climática na América do Norte, onde as pesquisas iniciais sobre nutrição e pastagens foram conduzidas, os animais pastejavam e recebiam suplementos concentrados durante o verão e durante o inverno recebiam feno ou silagem juntamente com o concentrado (1 kg de concentrado para cada 3 kg de leite produzido). Ao longo do tempo, ajustes foram feitos nas formulações dos concentrados para atender às necessidades energéticas, proteicas, vitamínicas e minerais (SCHINGOETHE, 2017).

Com o avanço na formulação de concentrados mais completos, percebeu-se a necessidade de desenvolver dietas totais que fornecessem todos os nutrientes essenciais. Isso levou à criação das primeiras rações completas, também conhecidas como Total Mixed Rations (TMR), por volta de 1960, resultado de evoluções graduais em nutrição, fisiologia, metabolismo, técnicas de avaliação e processamento de alimentos (MCCOY et al., 1966; RAKES, 1969). Os pecuaristas norte americanos possuíam o bom hábito de fazer silagem de milho, especialmente em regiões com maiores latitudes. A partir daí, eles começaram a analisar a viabilidade e as vantagens de produzir silagens de ração completa ou total (TMRs – Total Mixed Ration silages) em comparação às TMR tradicionais (BUENO et al., 2020).

De maneira geral, observa-se que o consumo de matéria seca das silagens de ração completa é inferior ao das rações completas não fermentadas; no entanto, observa-se aumentos na digestibilidade (ZHANG et al., 2020; 2021; MYIAJI et al., 2013). Isso traz implicações práticas significativas, especialmente quando se considera o menor consumo diário da ração ensilada, o que, no mínimo, mantém a produtividade e pode até resultar em um aumento na produtividade (seja carne ou leite).

Este fato pode ser explicado graças às modulações na microbiota ruminal, resultando em melhor aproveitamento dos nutrientes disponíveis. Como resultado, há uma influência na quantidade e perfil de ácidos graxos voláteis totais produzidos (ZHANG et al., 2020; CHAO et al., 2016; MIYAJI et al., 2012; 2013). No entanto, vale ressaltar que existem perspectivas divergentes na literatura. Enquanto alguns autores indicam que a maior digestibilidade resulta em um aumento no teor de gordura do leite e na deposição de músculo, outros relatam que, apesar da maior digestibilidade, não há correlação com mudanças no perfil de AGV (ZHANG et al., 2021).

Portanto, cada situação vai demandar que o nutricionista animal estabeleça as condições ideais de fermentação do material no silo e também se as proporções formuladas atenderão as exigências dos animais, dando o resultado esperado. Para tanto, o conhecimento das características inerentes aos ingredientes utilizados e os aspetos relacionados à fisiologia e nutrição animal tornará o processo mais compreensível e passível de ajustes finos para que se atinja o objetivo do pecuarista.

Vantagens

  • Não há necessidade da compra freqüente de concentrado (semanal, mensal…);
  • Ao comprar o concentrado de uma única vez e ensilá-lo, o uso de galpões de armazenamento é dispensado;
  • Diminuição do risco de perda do concentrado por infestações de insetos e roedores em galpões;
  • Diminuição da mão-de-obra diária com corte e moagem de capins;
  • Possibilidade de comercialização das silagens de ração completa;
  • Elevada estabilidade aeróbia, com manutenção do valor nutritivo;
  • Permite a ensilagem de plantas forrageiras com alta umidade e de resíduos/subprodutos industriais juntamente com concentrados;
  • Baixas perdas por efluentes;
  • Ingredientes de menor aceitabilidade podem ser consumidos integralmente quando usados na silagem de ração completa;
  • Melhoria da digestibilidade do amido e da fibra;
  • Diminuição da seletividade por parte dos animais por ser homogêneo;
  • Dispensa o uso de suplementação mineral ad libitum em cochos específicos, pois já estão contidos na ração;
  • Pode ser usada em fazendas de pequeno e grande porte, possibilitando o uso de sistemas automatizados.

Desvantagens

  • Compra do concentrado em uma única vez, aumentando investimento inicial;
  • Elevados prejuízos se a silagem for exposta ao ar (furo em lona, por exemplo);
  • Altos investimentos podem inviabilizar a utilização da técnica em propriedades com pequenos rebanhos, não dando a rotatividade esperada;
  • Mistura de grandes quantidades de material pode ser muito trabalhoso se realizado manualmente, podendo demandar misturadores mecanizados (alto custo);
  • Requer mais cuidados quanto à gestão da propriedade e do rebanho;
  • Diminuição do valor nutritivo devido à fermentação, principalmente carboidratos solúveis e proteína verdadeira;
  • Ao usar feno na formulação da ração deve-se moê-lo antes de realizar a ensilagem, aumentando o gasto com mão-de-obra.
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